Coluna Resgate – "Somos todos Amazônia"

Meio Ambiente

Roberto e Erasmo Carlos são uma espécie de Yin-Yang da música: a fusão e confusão entre suas personas na composição é tamanha que, por mais que se perceba características maiores de um ou de outro em determinadas canções, não passa de especulação — e, às vezes, teoria da conspiração — querer decretar quem tenha “feito mais” nesta ou naquela obra.
É verdade, também, que muitas vezes a assinatura é em dupla mas o trabalho é solo: em seu livro “Minha Fama de Mau” (Objetiva, Rio de Janeiro, 2008.) Erasmo revela que a canção “Eu sou fã do monoquini”, presente em Roberto Carlos canta para a juventude (1965), é totalmente dele. Em contrapartida, a pesada “É preciso dar um jeito, meu amigo”, interpretada pelo Tremendão no lendário Carlos, Erasmo… tem letra e melodia de Roberto.
Mas a maioria das músicas nasce mesmo a quatro mãos, e eis o ponto: Roberto&Erasmo, como um só, é dos maiores compositores da história da música brasileira, certamente o maior autor de hits em todos os tempos — nesse aspecto, a distância para um eventual segundo colocado (mesmo quando considerados Tom Jobim, Chico Buarque, Vinícius de Moraes ou Caetano Veloso) é bastante significativa.

Como artistas individuais, eles se consagraram em diferentes vertentes e facetas: após a Jovem Guarda, Roberto assumiria a imagem de ídolo pop e intérprete romântico, ao passo que Erasmo se sedimentaria como ícone do rock nacional, ainda que sem a merecida visibilidade.
Mesmo compondo juntos, as gravações de seus álbuns anuais demonstravam eu-líricos bastante distintos. E isso desde o começo. Exemplos: Erasmo tentava conquistar a Gatinha Manhosa enquanto Roberto mandava tudo pro inferno. Depois, Erasmo “queria Maria Joana” e ficava “em frente ao coqueiro verde” quando Roberto falava de “detalhes tão pequenos” e homenageava sua amada amante.
Mas há um grande ponto de convergência entre os compositores Roberto & Erasmo e os cantores Carlos: mensagens de pacifismo e ecologia. Eles são pioneiros nesse tipo de engajamento na música brasileira e, pode-se dizer, também mundial.
Coincidentemente, Roberto nasceu na data que seria lembrada como o dia do Índio, e Erasmo faz aniversário no dia mundial do meio ambiente.

Já no início dos anos 70 os dois registravam insatisfação com o tempo de então e os rumos que a sociedade e a humanidade vinham tomando. Roberto lançou suas primeiras músicas religiosas (“Jesus Cristo”, “A Montanha”), e Erasmo também retratava imagens bíblicas para dar seu recado: “Fogo, enxofre e morte ergueram-se do chão / Novo nascimento, velho testamento”.
Nesse período, começaram também a produzir canções de cunho bucólico, refletindo seus anseios de uma vida mais tranquila: “Lá, no lugar onde eu for morar / Vai ter que ser bem juntinho ao mar”, pediu Erasmo em “Meu Mar”, de 1972; “Algum lugar bonito pra viver em paz / Onde eu possa encontrar a natureza”, imaginava Roberto em “Além do Horizonte”, lançada em 1975.
Mas é 1976 que marca uma mudança — ou um início: era lançada a primeira, e provavelmente a melhor, canção com cunho realmente ecológico, mostrando um engajamento até então inédito. É importante lembrar que aquele seria um ano de fato decisivo para os rumos do ambientalismo. O Greenpeace havia sido criado em 1971 e um ano depois aconteceria a primeira grande conferência internacional sobre causas ambientais (em Estocolmo, Suécia), mas 76 apresenta uma série de novos rumos. No Brasil, basta dizer que foi o início do ativismo sindical do lendário Chico Mendes. E também começavam a crescer os protestos contra a construção de Itaipu.
Revelando não apenas sua preocupação ambiental mas também sua faceta melancólica, Roberto cantava lindamente em “O Progresso” um verso que, hoje, serviria perfeitamente como slogan para qualquer ONG defensora de cães abandonados ou mesmo como motto de lamentáveis comunidades virtuais que afirmam gostar mais de bicho do que de gente: “Eu queria ser civilizado como os animais”.

A profundidade dessa canção não se revela apenas em sua qualidade musical: teve, também, forte apelo político (“o comércio das armas de guerra da morte vivendo”) e até mesmo econômico (“Eu queria gritar que esse tal de ouro negro não passa de um negro veneno!”). Não à toa, a obra foi proibida na Argentina, que teve ditadura, sob todos os aspectos, mais feroz que a do Brasil — onde a canção passou incólume, o que contribuiu para que se passasse a ignorar o engajamento presente na obra dos compositores.

Algum tempo depois, ambos dariam recados muito importantes.
Em 1978, Erasmo ampliava a ideia de Francis Hime e Chico Buarque, lançada dois anos antes. Em “Passaredo”, Buarque elencava vários nomes de pássaros e alertava: “muito cuidado, o homem vem aí”. No disco “Pelas esquinas de Ipanema”, Erasmo falava não apenas da “temporada de pássaros”, mas também das de flores e peixes. E a ironia: homens imaculados, perfeitos e inteligentes.
No ano seguinte, era a vez de Roberto a falar das ações do homem e de como elas alteram os rumos da natureza e da sociedade. “O mar quase morre de sede no ano passado. Os rios ficaram doentes com tanto veneno”. Ao mesmo tempo, demonstrava preocupação (“O que será do futuro que hoje se faz? A natureza, as crianças e os animais?”), mas ironizava, também: “diante da economia, quem pensa em ecologia?”.

Nos anos 80, a dupla faria canções mais específicas, direcionadas a grupos ou a temas selecionados.
Roberto já havia falado das baleias em “O progresso” (“e as baleias desaparecendo por falta de escrúpulos comerciais”) e “O ano passado” (“quantas baleias queriam nadar como antes?!”), mas é em seu álbum de 1981 — por muitos considerado seu último GRANDE disco — que ele finalmente dedicaria uma canção ao grande mamífero dos mares.
Recheada de poesia, a letra mexe com os sentimentos: “como é possível que você tenha coragem de não deixar nascer a vida que se faz?”. No refrão, uma espécie de previsão que também se revela muito emocional: “seus netos vão te perguntar em poucos anos pelas baleias que cruzavam oceanos”.
Importante salientar que seria apenas em 1986 que medidas contra a caça às baleias passariam a ser tomadas de fato, mas tal prática só se tornaria crime no Japão — talvez o país com maior tradição e maior índice dessa prática — em 2014. 33 anos (TRINTA E TRÊS!) após o lançamento da canção, portanto.

A dupla não se limitou a falar dos animais, mas falou também de outras questões ambientais: a população indígena e o desmatamento.
Roberto Carlos cantaria em seu álbum de 1987 a bela “Águia Dourada” (“Mostra a esse povo civilizado / Que todo índio sabe viver /Com a natureza sempre a seu lado.”), mas a grande pérola nessa temática foi “A Carta do Índio”, lançada por Erasmo em seu disco de 1981 — que contém o sucesso “Mulher”.
A letra não é composição dos Carlos, mas sim a adaptação em formato de poema para o texto do cacique Seattle, de 1855 (Leia o original clicando aqui). Das coisas mais fortes já escritas em todos os tempos: “Mais depressa que outras raças / o branco vai fazer a sua desaparecer/ Restará o fim da vida, Mulheres tagarelas, e a luta pra sobreviver”.

1989, ano da criação do IBAMA e das primeiras eleições presidenciais diretas em quase 30 anos, Roberto Carlos aparece melancólico em seu disco anual. Na capa, ostentava uma pena em seu cabelo. E a faixa de abertura era um grito que misturava socorro e denúncia: “Sangue verde derramado / O solo manchado / Feridas na Selva / A lei do machado”.
Após mais de uma década falando da natureza e criticando as ações do homem, Roberto decidiu fazer algo mais prático: em 1990, seu tradicional especial de fim de ano teria nome: “Verde é Vida”. O programa apresentou ao público, além das músicas, reportagens e ações ecológicas realizadas em diferentes cidades brasileiras.
Durante o dia, atores da Rede Globo distribuíram 400 mil mudas de árvores em diferentes cidades do país. Entre os artistas convidados estavam Eva Wilma, Carlos Zara, Raul Cortez e Lolita Rodrigues. Roberto Carlos dividiu a apresentação do programa com Cláudia Raia.

***
É claro que não se pode comparar a importância ou o impacto das canções de Roberto & Erasmo com as ações sociais e a verdadeira guerra silenciosa travada diariamente por grandes ícones e ativistas do meio ambiente. Muitos estão sendo mortos agora mesmo, enquanto produzo este texto.
Mas não há como negar que, tanto do ponto de vista formal quanto do alcance de suas palavras, o canto deles é muito mais efetivo e relevante do que as postagens “conscientes” de celebridades que vão de Cauã Raymond a Valeska Popozuda, passando por Mônica Martelli e Luciano Huck, ou mesmo de políticos como Vanessa Graziotin.
Estes, passados mais de 40 anos dos alertas de Roberto e de Erasmo, hoje são considerados “engajados”, e se auto-intitulam os verdadeiros amantes da natureza e do país. Trocam suas fotos nas redes sociais — Facebook e Twitter não são empresas capitalistas, devo crer — em protestos contra a exploração por parte de grupos privados, mudam seu sobrenome no perfil para tribos indígenas, usam hashtags com algum S.O.S ou “somos-todos-alguma-coisa” em seus posts e assinam petições no Avaaz.
Sabe-se que, no fundo, há um viés muito mais político — e é nesse ponto que um Huck e uma Grazziotin convergem — do que ecológico ou nacionalista em tais ações.

O fato de, durante tanto tempo, as canções da dupla e os projetos de Roberto em prol dos animais ou da Floresta Amazônica terem sido considerados uma simples fase artística e tais “terríveis sinais de alerta” não serem levados a sério diz muito mais sobre quem escutava do que sobre quem falava.
Afinal, como Roberto e Erasmo previram em uma de suas mais geniais canções, “muita gente não ouviu porque não quis ouvir: eles estão surdos”.
#TodosPelaAmazonia: por iniciativa do próprio Spotify, uma playlist para a Floresta Amazônica, incluindo a canção “Amazônia”, de Roberto e Erasmo.

Marcel Pilatti é paranaense. Professor e escritor, é sobretudo um apaixonado por arte e esportes. Na coluna “Resgate”, o autor abordará fatos e personagens que marcaram a história, mas que precisam ser revistos.

 

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